Florianópolis anuncia 800 novas moradias — serão mesmo populares?
Florianópolis anuncia 800 novas moradias pelo programa Floripa para Todos. Mas será que elas serão realmente populares? Entenda o debate.
Autor
Leonardo RamosFundador e mentor da IABrokers, especializada em marketing imobiliário, inteligência artificial, automação e vendas para corretores de imóveis, imobiliárias e incorporadoras. Autor do método AHAI.

A cidade de Florianópolis aprovou recentemente o programa Floripa para Todos, considerado o maior plano habitacional da história da capital catarinense. A expectativa inicial é de 800 novas unidades habitacionais destinadas a famílias de baixa renda — inclusive, segundo alguns veículos, famílias com até seis salários mínimos de renda.
O que o programa prevê
- Terrenos públicos cedidos pelo município para empreendimentos habitacionais.
- Parceria público-privada (PPP): o município oferecerá a infraestrutura (acesso, saneamento, pavimentação, iluminação) e as empresas privadas serão responsáveis pela construção e execução.
- Incentivos como isenção de IPTU, taxas de alvará de construção e de aprovação ("Habite-se") para os empreendimentos.
- Famílias beneficiárias deverão estar inscritas no Cadastro Habitacional do município e comprovar residência em Florianópolis por ao menos cinco anos.
- Áreas previstas: bairros como Campeche, Estreito, Tapera da Base e Vargem Grande aparecem como locais mapeados para implantação.
O lado positivo
São claros os potenciais benefícios:
- Redução do déficit habitacional: a cidade dá um passo para ampliar o número de moradias populares, o que era uma demanda recorrente.
- Melhoria da infraestrutura e reurbanização de áreas menos atendidas ou de risco.
- Criação de oportunidades: tanto para famílias que aguardavam moradia quanto para movimentação do setor da construção civil e geração de empregos diretos e indiretos.
O lado crítico: será que beneficia quem diz beneficiar?
Aqui entram os alertas. O vereador Leonel Camasão fez uma declaração forte durante sessão da Câmara de Vereadores, criticando o programa sob uma ótica de risco de desvirtuamento:
🗣️ "Isso não é Habitação e Interesse Social, isso é a Airbnb, gente. Isso é a Airbnb…
Que família que mora em 24 metros quadrados? … Se os mais pobres (faixa 1) estão excluídos desse projeto… e vamos poder ter 24 metros quadrados… vai virar a Airbnb, igual aconteceu em São Paulo."
O vereador argumenta que:
- O programa estaria excluindo explicitamente famílias da faixa 1 do Minha Casa Minha Vida, ou seja, aquelas com renda mais baixa e maior vulnerabilidade.
- Há previsão de unidades com apenas 24 m², o que, segundo ele, não configura moradia digna para famílias.
- O risco de que essas moradias sejam usadas como aluguéis de curta temporada, afastando o propósito original de moradia popular.
A contradição aparente
Vejamos: enquanto o programa é anunciado como ampla ação social para famílias de baixa renda, a crítica aponta falhas de desenho que podem favorecer o uso comercial ou especulativo dos imóveis. Entre os pontos de tensão:
| Item | O que o programa diz | O que a crítica faz notar |
|---|---|---|
| Público-alvo | Famílias de baixa renda, alcance de até 6 salários mínimos. | A faixa mais vulnerável (faixa 1) estaria sendo excluída, segundo Camasão. |
| Dimensionamento das unidades | Não detalhado amplamente nos comunicados. | Aparecem menções a unidades de "mínimo 24 m²" — que levantam a questão: qual a condição de moradia digna? |
| Finalidade | Moradia social, acesso à casa própria. | Possível uso como investimento ou curto prazo — "Airbnb" —, desviando-se do foco original. |
| Localização | Vários bairros com oferta de terrenos públicos. | Algumas áreas podem ter valorização elevada ou pressão turística — o que eleva o risco de especulação. |
Minha opinião
Como profissional que atua no ecossistema de inovação imobiliária, vejo este programa como uma oportunidade relevante, mas que exige atenção rigorosa aos mecanismos de governança, uso e controle. A política habitacional só será eficaz se garantir quem realmente mora — e não apenas "quem pode pagar".
Se as unidades forem utilizadas como moradia digna, com famílias integradas ao local e infraestrutura de qualidade, ótimo. Mas se, por outro lado, acabarem virando estoques de investimento ou aluguel de temporada, então o programa perde sua razão de ser.
Perguntas que precisam ser acompanhadas:
- Qual será o cronograma de entrega e transferência das unidades?
- Haverá cláusulas que impeçam o uso das moradias como aluguel de curta temporada ou especulação?
- Como será feita a fiscalização do destino das unidades após a entrega?
- Qual o tamanho, acabamento e configuração dos apartamentos — são adequados para famílias (não apenas "studio")?
- Qual o mecanismo de escolha dos beneficiados — realmente aqueles de maior vulnerabilidade?
Conclusão
O programa "Floripa para Todos" tem tudo para se tornar um marco para Florianópolis — mas o caminho está cheio de desafios. A verdadeira virada de chave será alcançada se a moradia social for efetivamente social, e não apenas mais uma oferta de mercado com "label" habitacional.
Se a cidade com seu forte apelo turístico quiser realmente garantir moradia para todos, será preciso combinar planejamento urbano, regulação firme, controle de uso e transparência. Só assim o sonho da casa própria deixa de ser privilégio e se torna direito.
📰 Fontes
- ND Mais — Florianópolis terá 800 moradias em novo programa habitacional
- Blog do Prisco — Maior programa habitacional da história de Florianópolis é aprovado e deve revolucionar oferta de moradias populares
- Diário do Litoral — 800 novas residências serão construídas para famílias com até 6 salários mínimos
- CBN Total — Novo programa habitacional em Florianópolis promete transformar acesso à moradia
- VB Notícias — Prefeitura lança programa Floripa para Todos com meta de 800 novas moradias
- Agora Floripa — Florianópolis aprova maior programa habitacional da história: sonho da casa própria
✍️ Texto: Leonardo Ramos | IABrokers – Ecossistema de Inovação Imobiliária
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